sábado, 19 de agosto de 2017

Desigualdade, pobreza e desenvolvimento



A recente divulgação em Portugal da riqueza acumulada por um pequeno número de super-ricos (20 patrimónios individuais equivalentes a cerca de 10% do total do PIB nacional!) traz para a opinião pública a discussão sobre a problemática inerente à constituição desses patrimónios bem como as consequências que advêm da grande desigualdade, que tal situação evidencia, para o bom funcionamento das sociedades, o seu desenvolvimento e democracia.

“Nos últimos 30 anos, a distância que separa os rendimentos dos 10% mais ricos dos rendimentos dos 10% mais pobres subiu significativamente no conjunto dos países da OCDE. Os 10% mais ricos auferem presentemente cerca de 9,5 vezes mais rendimento que os 10% mais pobres, um valor claramente superior ao de 7,1 observado na década de 80 do século passado.

O texto do economista Carlos Farinha - Desigualdade, pobreza e desenvolvimento - uma reflexão que se integra no projeto Economia e Sociedade – Pensar o futuro, mostra claramente que não só Portugal é um País muito desigual, como a desigualdade vem-se agravando desde 2009, com consequências muito negativas para a coesão social e para o próprio crescimento económico.

“O ponto de partida desta digressão acerca da relação entre desigualdade e desenvolvimento pode ser sistematizada em cinco vectores considerados fundamentais para a análise da importância crescente das desigualdades na nossa forma de viver e nas condições de vida auferidas pelas populações.

O primeiro é o de que assistimos hoje a um forte crescimento da desigualdade a nível global que se iniciou na década de 80 e que assume hoje proporções não vivenciadas na generalidade dos países pelo menos desde 1945.

O segundo prende-se com a identificação do principal factor explicativo do agravamento das desigualdades: a crescente concentração da riqueza e do rendimento detidos por um número cada vez mais reduzido de pessoas na parte superior da escala de rendimento. Este fenómeno implica necessariamente olhar para as desigualdades de uma forma diferente. Assistimos hoje a uma deslocação da tradicional análise de “ricos versus pobres” para uma outra que, para além daquela, opõe igualmente os “super-ricos” ao conjunto da sociedade.

O terceiro aspecto tem a ver com as diferenças entre a desigualdade dos rendimentos e a desigualdade da riqueza. A generalidade dos estudos efectuados nos últimos anos centra-se na análise da formação e distribuição dos rendimentos. Devido à sua maior complexidade e dificuldade de estimação, a distribuição da riqueza tem permanecido um pouco na penumbra, sendo relativamente poucos os estudos publicados nesta área. No entanto, os que existem são inequívocos na demonstração que a desigualdade na distribuição da riqueza é muito superior à da distribuição dos rendimentos. Se quisermos conhecer, de facto, a verdadeira natureza das desigualdades, e as suas consequências, é necessário ter em conta não somente a relação entre a riqueza e o rendimento, mas igualmente aspectos específicos da formação e consolidação da desigualdade da riqueza como, por exemplo, o papel da sua transmissão intergeracional.

O quarto elemento estruturante da nossa forma de olhar para as desigualdades prende-se com a sua relação com a pobreza. (…) É hoje indiscutível a existência de uma forte associação entre os níveis de desigualdade e os indicadores de pobreza.

O último aspecto que gostaria de salientar, porventura o mais importante, é o de que esta concentração excessiva da riqueza e dos rendimentos constitui não só um factor de injustiça social e um elemento potenciador da pobreza e da exclusão social de milhões de homens e mulheres das nossas sociedades, mas constitui igualmente, e de forma cada vez mais vincada, um travão ao crescimento económico e ao desenvolvimento social. A concentração crescente dos principais recursos do planeta num conjunto reduzido de indivíduos e famílias é necessariamente incompatível com a noção de desenvolvimento sustentado que respeite o ambiente, promova a criação de riqueza e a sua distribuição mais equitativa e que seja inclusivo para o conjunto da sociedade.



E na sua parte final, o texto conclui:

“A exigência de uma política económica que promova a redução das desigualdades coloca-se, assim, não somente como uma questão de justiça social, mas igualmente enquanto elemento constituinte da reivindicação de um modelo de desenvolvimento que tenha em conta as necessidades de todos os elementos da sociedade, a valorização do trabalho e um modelo de funcionamento da economia que seja simultaneamente mais eficiente e mais justo, que assegure e promova a coesão social.
Uma política que reduza as desigualdades económicas e sociais pressupõe uma intervenção activa do Estado enquanto elemento corrector das insuficiências do mercado. Nesse contexto, é necessário melhorar a arquitectura e o funcionamento das políticas sociais e fiscais de forma a assegurar o aumento da sua capacidade redistributiva.

As políticas sociais devem privilegiar o reforço da sua eficácia e da sua eficiência no combate às desigualdades e à pobreza, devem permitir uma melhor identificação das populações alvo dessas políticas e terem a capacidade de combinar políticas universais com políticas selectivas dirigidas aos grupos sociais mais vulneráveis. É também necessária a articulação entre medidas que privilegiem o colmatar do “défice de recursos” com medidas que visem o reconhecimento e a efectivação dos direitos, sendo para isso necessário inverter o processo de redução e de enfraquecimento do Estado Social que ocorreu na generalidade dos países desenvolvidos nas últimas décadas.

Particular atenção deve ser dada a medidas cujo objectivo declarado seja a redução da proporção de crianças e jovens em situação de pobreza, assumindo claramente os custos dessas medidas como reforço do capital humano e de prevenção da reprodução intergeracional da pobreza. É igualmente necessário um reforço dos sistemas de rendimento mínimo, aumentando a sua eficácia e eficiência na eliminação de situações de pobreza extrema, reforçando a sua componente de inclusão activa na sociedade e, quando adequado, no mercado de trabalho.

As políticas fiscais devem possibilitar uma maior abrangência, condição necessária para uma menor tributação e uma maior progressividade do conjunto do sistema fiscal. O tratamento fiscal equitativo das várias fontes de rendimento é, nesse contexto, um elemento fundamental. A tributação da riqueza e a reavaliação dos benefícios e deduções fiscais mais regressivos devem ser tidos em conta de forma a assegurar uma maior progressividade do sistema fiscal no seu todo.

Uma política que reduza as desigualdades económicas e sociais pressupõe medidas que atendam também à necessária correcção da desigualdade na repartição funcional do rendimento, estabelecendo regras de repartição dos excedentes entre investidores e trabalhadores. Para tal é necessário assumir-se claramente que o processo de criação de riqueza e da sua distribuição não são compartimentados no tempo e sequenciais, mas sim um processo simultâneo que define a natureza do próprio modelo económico.
Uma política que reduza as desigualdades económicas e sociais pressupõe igualmente a valorização do trabalho, rejeitando um modelo de desenvolvimento assente nos baixos salários e na subordinação dos direitos dos trabalhadores no quadro das relações laborais. A promoção da criação de empregos de qualidade constitui, nesse quadro, um instrumento fundamental. A redução sustentada do desemprego deve constituir um objectivo estratégico da política económica, assente em metas quantificáveis e monitorizáveis.

Por último, o combate efectivo às desigualdades sociais não pode ser efectuado no âmbito exclusivo da política económica. O combate às desigualdades deve ser entendido como um instrumento de cidadania e de reforço da coesão social. Tal implica não somente um novo reconhecimento dos efeitos nefastos da desigualdade, mas igualmente um processo de aumento da aversão à desigualdade da maioria dos cidadãos.

Texto na integra




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Dia da Sobrecarga da Terra

No passado dia 2 de agosto, atingimos o dia da Sobrecarga da Terra.



O que é que isso quer dizer?

Quer dizer que, até esse dia, gastamos todos os recursos naturais básicos para sustentar a vida que o nosso planeta consegue repôr durante um ano. A partir desse dia estamos a gastar a crédito.

Todos os anos é apresentada uma estimativa sobre o dia em que a Humanidade atinge o limite do uso sustentável de recursos naturais disponíveis para esse ano, ou seja, o orçamento natural, habitualmente designado como Overshoot Day. Os valores utilizados para  calcular o Dia da Sobrecarga da Terra são obtidos a partir da comparação do consumo total da humanidade por ano (pegada ecológica) com a capacidade da Terra em regenerar os recursos naturais renováveis por ano (biocapacidade). Para este cálculo, são usadas estatísticas das Nações Unidas.

Em quase 50 anos de cálculos, 2017 é o ano em que este dia chega mais cedo. Em 2016, foi a 8 de agosto. No ano anterior, a 13, em 2014, a 19 e em 2013, a 20 de agosto.

Um dado assustador é comparar com décadas passadas. Em 1971, foi no dia 21 de dezembro. Desde então, todos os anos, ela chega antes. Ou seja, a cada ano que passa, todos nós – os seres humanos – estamos explorando os recursos naturais do planeta com mais voracidade e sem dar tempo para a Terra os recompôr.



“Estávamos no verde e agora entramos no vermelho ou no cheque especial. O que gastaremos daqui para frente será violentamente arrancado da Terra para atendermos as indispensáveis demandas humanas e, o que é pior, manter o nível de consumo perdulário dos países ricos.
A esse fato se costuma chamar de “Pegada Ecológica da Terra”. Por ela, se mede a quantidade de terra fértil e de mar necessários para gerar os meios de vida indispensáveis como água, grãos, carnes, peixes, fibras, madeira, energia renovável e outros mais. Dispomos de 12 bilhões de hectares de terra fértil (florestas, pastagens, cultivos) mas, na verdade, precisaríamos de 20 bilhões.
Como cobrir este défice de 8 bilhões? Sugando mais e mais a Terra….mas até quando? Estamos lentamente descapitalizando a Mãe Terra. Não sabemos quando acontecerá o seu colapso. Mas a continuar com o nível de consumo e desperdício dos países opulentos, ele virá com consequências nefastas para todos.
(…) Essa Sobrecarga Ecológica é um empréstimo que estamos tomando das gerações futuras para o nosso uso e desfrute atual. E quando chegar a vez deles, em que condições vão satisfazer as suas necessidades de alimento, água, fibras, grãos, carnes e madeira? Poderão herdar um planeta depauperado.
(…) O que vigora no mundo é uma perversa injustiça social, cruel e desapiedada: 15% dos que vivem nas regiões opulentas do Norte do planeta dispõe de 75% dos bens e serviços naturais e 40% da terra fértil. Alguns milhões, quais cães famélicos, devem esperar as migalhas que caem de suas bem servidas mesas..
Na verdade, a “Sobrecarga da Terra” resulta do tipo de economia delapidadora das “bondades da natureza” como falam os andinos, desflorestando, poluindo águas e solos, empobrecendo ecossistemas e erodindo a biodiversidade. Esses efeitos são considerados “externalidades” que não afetam o lucro e não entram na contabilidade empresarial. Mas afetam a vida presente e futura.” – assim escreve Leonard Boff (ver crónica na integra AQUI)


Segundo a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, Portugal contribuiu ativamente para esta situação. Se todos os países tivessem a mesma pegada ecológica que nós, seriam necessários 2,3 planetas.O consumo de alimentos  (32% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) encontram-se entre as atividades humanas diárias que mais contribuem para a pegada ecológica de Portugal e constituem assim pontos críticos a necessitar de intervenção.

Num mundo onde persiste uma enorme desigualdade em termos de distribuição de rendimentos e acesso a recursos naturais, estes dados são claros sobre a necessidade de se produzir e consumir de forma muito diferente.

O Planeta é a fonte de tudo o que necessitamos para viver enquanto espécie. O Overshoot Day indica-nos que estamos a forçar os limites do planeta cada vez com maior intensidade, uma tendência que é urgente mudar para bem da Humanidade e da sua qualidade de vida.

É urgente alterar esta tendência insustentável.

Propostas da ZERO para reduzir o défice ambiental podem ser lidas AQUI   


terça-feira, 18 de julho de 2017

NELSON MANDELA



“O que conta na vida não é o simples facto de vivermos. A diferença que fizermos na vida dos outros é que determina a importância da vida que levamos.”

Em 2009 a ONU declarou o dia 18 de julho como o “Dia Internacional Nelson Mandela”, como forma de  prestar  homenagem a um dos grandes impulsionadores da democracia e da paz no mundo e de lembrar que cada homem tem um impacto no mundo e o poder de o mudar.

Do discurso proferido por Nelson Mandela, em 1964, no tribunal da Pretória, aquando da abertura do processo de defesa, no julgamento de Rivonia. Estava preso há já dois anos.

“A África do Sul é o país mais rico de África, e poderia ser um dos países mais ricos do mundo. Mas é uma terra de extremos e contrastes notáveis. Os brancos desfrutam o que pode muito bem ser o mais alto padrão de vida no mundo, ao passo que os africanos vivem na pobreza e na miséria. A queixa dos africanos, no entanto, não é só por serem pobres e os brancos ricos, mas o facto das leis feitas pelos brancos serem projetadas para perpetuar essa condição. Há duas formas de sair da pobreza. A primeira é através da educação formal, e a segunda é o trabalhador adquirir maior habilitação no seu trabalho e assim, salários mais elevados. 
(…) A única cura é alterar as condições em que os africanos são forçados a viver e satisfazer suas queixas mais legítimas. Os africanos querem ter um salário digno. Querem realizar um trabalho que são capazes de fazer e não trabalhar naquilo em que o governo declara que sejam capazes de fazer. Durante a minha vida dediquei-me a esta luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca e também contra a dominação negra. Estimo o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas possam viver juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e ver realizado. Mas, meu Senhor, se preciso for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”.

Do primeiro discurso público de Nelson Mandela, após a sua libertação da prisão, em 1990.

“Amigos, camaradas e companheiros sul-africanos, saúdo todos vós em nome da paz, democracia e liberdade para todos. Estou aqui diante de vós não como um profeta, mas como um humilde servo do povo. Vossos sacrifícios incansáveis e heróicos tornaram possíveis para mim estar aqui hoje. Por isso, coloco os anos restantes da minha vida nas vossas mãos. Neste dia da minha libertação estendo a minha gratidão sincera e mais calorosa aos milhões de compatriotas e a todos, nos quatro cantos do mundo, que fizeram uma campanha incansável pela minha libertação.
A necessidade de unir o povo do nosso país é uma tarefa tão importante agora como sempre foi. Nenhum líder individual é capaz de assumir essa enorme tarefa por conta própria. É nossa tarefa como líderes colocar nossos pontos de vista antes da nossa organização e permitir que as estruturas democráticas decidam sobre o caminho a seguir. Sobre a questão da prática democrática, sinto o dever de observar que um líder do movimento é uma pessoa que foi eleita democraticamente numa eleição nacional. Este é um princípio que deve ser acolhido sem quaisquer exceções”.

Do discurso anunciando a sua retirada de cargos políticos, em 2004.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar. A educação é a arma mais forte que se pode usar para mudar o mundo. Os sonhos um dia podem tornar-se realidade e não há caminho fácil para a liberdade. A luta tem que ser diária e com perseverança para podermos atingir o objetivo de, um dia, as pessoas viverem como verdadeiros irmãos, com liberdade e respeito pelo seu semelhante”. 


sábado, 15 de julho de 2017

Água, saneamento e higiene



A UNICEF e a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgaram as primeiras estimativas globais sobre água, saneamento e higiene em relação aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável: cerca de 2,1 mil milhões de pessoas no mundo, ou seja 30% da população mundial, não têm acesso a serviços de abastecimento de água em casa  e 4,4 mil milhões, ou seja 60%, não dispõem de saneamento com o mínimo de condições de segurança.

O relatório do Programa Conjunto de Monitorização OMS/UNICEF - Progressos em matéria de água potável, saneamento e higiene: actualização de 2017 relativamente aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável - apresenta a primeira avaliação mundial sobre serviços de água potável e saneamento geridos de forma segura.

"Ter acesso a água potável, saneamento e higiene em casa não devia ser um privilégio apenas dos ricos ou dos que vivem em centros urbanos", diz Tedros Adhanom Ghebreyesus, Director-geral da Organização Mundial da Saúde. "Estamos a falar de serviços básicos para a saúde humana, e todos os países têm a responsabilidade de assegurar que todas as pessoas lhes possam aceder.”

Ainda que, desde o ano 2000, milhares de milhões de pessoas tenham passado a aceder a serviços básicos de água potável e saneamento, estes serviços não fornecem necessariamente água e saneamento seguros. Muitas casas, centros de saúde e escolas ainda não dispõem de água e sabão para lavagem das mãos, situação que põe a saúde das pessoas, mas principalmente das crianças pequenas, em risco de doenças, como a diarreia.


Como consequência, cerca de 360 mil crianças menores de 5 anos morrem anualmente devido à diarreia. O saneamento precário e a água contaminada também estão associados à transmissão de doenças como a cólera, disenteria, hepatite A e febre tifóide.

"A água salubre, o saneamento e a higiene adequados são fundamentais para a saúde de todas as crianças e de todas as comunidades e por isso essenciais para construir sociedades mais fortes, mais saudáveis e mais equitativas", refere Anthony Lake, Director Executivo da UNICEF. "Ao melhorarmos hoje estes serviços nas comunidades carenciadas e para as crianças mais carenciadas, estamos a dar-lhes uma oportunidade mais justa para que possam ter um futuro melhor."

Dos 2,1 mil milhões de pessoas que não dispõem de água gerida com segurança, 844 milhões não têm mesmo acesso a serviços básicos de água potável. Este número inclui 263 milhões de pessoas que levam mais de 30 minutos para chegar ao ponto de abastecimento de água mais próximo e 159 milhões continuam a beber água não tratada de fontes de água de superfície, como riachos ou lagos.

Em 90 países, os progressos em matéria de saneamento básico são muito lentos, o que significa que não atingirão a cobertura universal até 2030. Dos 4,4 mil milhões de pessoas que não têm acesso a um saneamento seguro, cerca de metade ainda nem dispõe de serviços básicos de saneamento. Este número inclui 600 milhões de pessoas que partilham sanitários ou latrinas com outras famílias e 900 milhões de pessoas – principalmente em zonas rurais – que defecam ao ar livre, uma prática que devido ao crescimento populacional está a aumentar na África subsariana e na Oceânia.

As boas práticas de higiene são a maneira mais simples e eficaz de evitar a propagação de doenças. Pela primeira vez, está a ser monitorizada a percentagem de pessoas que dispõem de instalações para lavar as mãos em casa com água e sabão. De acordo com o novo relatório, o acesso a água e sabão para lavagem das mãos varia consideravelmente nos 70 países com dados disponíveis, oscilando entre 15% da população na África subsariana e 76% na Ásia Ocidental e no Norte de África. 

Resumo do relatório AQUI 







segunda-feira, 3 de julho de 2017

Dia Internacional Sem Sacos de Plástico



O objetivo da data é chamar a atenção para a produção e para o consumo excessivo de sacos plásticos a nível mundial, propondo-se alternativas para resolver este sério problema ambiental.

Os sacos de plástico são constituídos por resinas tóxicas oriundas do petróleo e levam cerca de 500 anos a decompor-se. Apesar da gravidade da situação, apenas 2% da população recicla sacos plásticos.

Em 2014, a Europa produziu 20% do plástico mundial, ou seja, 59 milhões de toneladas de plástico, das quais 39,8% se destinaram a embalagens, incluindo sacos de plástico. Esta produção gerou 25,8 milhões de toneladas de resíduos, dos quais 30,8% foram depositados em aterro. Estima-se que todos os anos os europeus utilizem mais de 100 mil milhões de sacos de plástico. Portugal consome anualmente cerca de dois mil milhões de sacos de plástico.


A contaminação do meio marinho com plásticos adquiriu proporções verdadeiramente preocupantes nos últimos anos, mediatizadas nas gigantescas ilhas de plástico que se formaram nos principais oceanos. De acordo com um relatório do Fórum Económico Mundial, tudo indica que, em 2050, se encontre mais plástico no mar do que peixe.

Estão comprovados e amplamente divulgados os efeitos nefastos dos sacos de plástico no ambiente, em especial em meio marinho, com envenenamento, asfixia e morte de peixes, animais e aves marinhas.

Todos os anos entram no mar cerca de 12 milhões de toneladas de plásticos, devido à ausência ou ineficácia dos sistemas de tratamento de resíduos nas zonas costeiras. Cerca de 6% destes plásticos permanecem à superfície, mas os restantes 94% têm impactos muito significativos nas espécies marinhas.

Há também uma contaminação generalizada por microplásticos, tendo sido detetada a sua presença em várias espécies de peixes com valor económico, e ainda no sal marinho, o que significa que os microplásticos estão já a entrar na cadeia alimentar, ameaçando a saúde humana.


Da Carta Encíclica Laudato Si do Papa Francisco : 
A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa de traduzir-se em novos hábitos” (LS 209)

A existência de leis e normas não é suficiente, a longo prazo, para limitar os maus comportamentos, mesmo que haja um válido controle. Para a norma jurídica produzir efeitos importantes e duradouros, é preciso que a maior parte dos membros da sociedade a tenha acolhido, com base em motivações adequadas, e reaja com uma transformação pessoal. A doação de si mesmo num compromisso ecológico só é possível a partir do cultivo de virtudes sólidas. Se uma pessoa habitualmente se resguarda um pouco mais em vez de ligar o aquecimento, embora as suas economias lhe permitam consumir e gastar mais, isso supõe que adquiriu convicções e modos de sentir favoráveis ao cuidado do ambiente. É muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas acções diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas até dar forma a um estilo de vida. A educação na responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos que têm incidência directa e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias… Tudo isto faz parte duma criatividade generosa e dignificante, que põe a descoberto o melhor do ser humano. Voltar – com base em motivações profundas – a utilizar algo em vez de o desperdiçar rapidamente pode ser um acto de amor que exprime a nossa dignidade”. (LS 211)


«Como nunca antes na história, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início (...). Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar duma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida» (Carta da Terra)



quarta-feira, 28 de junho de 2017

Escutar o grito dos pobres e erradicar a pobreza que anula a dignidade humana

Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz”.


Sabemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, para se poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos vincados pelo sofrimento, a marginalização, a opressão, a violência, as torturas e a prisão, pela guerra, a privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e o analfabetismo, pela emergência sanitária e a falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e a escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!

Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.

Todos estes pobres – como gostava de dizer o Beato Paulo VI – pertencem à Igreja por «direito evangélico» (Discurso de abertura na II Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II, 29/IX/1963) e obrigam à opção fundamental por eles. Por isso, benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem «se» nem «mas», nem «talvez»: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus.”

Assim  escreve o Papa Francisco na mensagem para o primeiro Dia Mundial dos Pobres que se assinala, este ano, a 19 de novembro.

E continua: “Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.

“Será um Dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa”.



Mensagem na íntegra pode ser lida AQUI

terça-feira, 20 de junho de 2017

Em cada três segundos há um refugiado forçado no mundo


Assinala-se esta terça-feira, 20 de junho, o Dia Mundial do Refugiado para render homenagem ao valor e resiliência de milhões de pessoas e famílias que foram obrigadas a abandonar tudo devido à guerra, à perseguição e à discriminação, num mundo onde as fronteiras parecem fechar-se, as valas e muros parecem ser a resposta de alguns Estados aos grandes deslocamentos de migrantes e refugiados e em que o espaço humanitário tende a reduzir-se.

Segundo as Nações Unidas, em todo o mundo existem 65,6 milhões deslocadas à força: 22,5 milhões são refugiados - mais de metade são menores de 18 anos,  40,3 milhões são pessoas deslocadas internamente e 2,8 milhões são requerentes de asilo.

Estas novas vagas de mobilidade humana deve-se principalmente a conflitos, desastres, degradação ambiental e em particular às desigualdades entre o sul e o norte.

Mais de um milhão de refugiados precisam de ser recolocados noutro país, mas apenas um em cada 13 irá consegui-lo, de acordo com a ONU que diz que só há 93.200 lugares disponíveis para 2017.


De acordo com os números da Organização Internacional para as Migrações (OIM) os migrantes e potenciais refugiados que chegaram em 2017 à Europa através do Mediterrâneo atingem as 60.000 pessoas. Cerca de 85% dos migrantes registados até 10 de maio chegaram a Itália. Os restantes 15% chegaram à Grécia, a Chipre e a Espanha.

Entre 1 de janeiro e 22 de maio registaram-se 1.300 mortes, três vezes mais que em 2016. Já foram resgatados mais de 20 mil migrantes nesta rota desde o início do ano. Desde 2014 mais de 14.000 pessoas morreram no Mediterrâneo, quando tentavam alcançar a Europa.



Guerra, violência e perseguição elevam deslocamentos forçados a um nível sem precedentes  LER AQUI